Dois homens soltos na folia soteropolitana. Um deles carregava uma
papeleta no bolso com nome completo, telefone, endereço e recebeu a
orientação de procurar um policial caso acontecesse algum desencontro.
Foi com este cuidado que o pai cumpriu seu dever cívico de apresentar o
carnaval ao filho varão. Duas gerações compartilhando momentos na grande
taberna a céu aberto.
Tenho tudo bem nítido aqui na
memória. O refrigerante que matava a sede, multidão descontrolada, a
alternância entre o chão e o ombro do velho, brinquedos comprados na mão
de ambulantes, som alto, o cheiro - ainda desconhecido - de cerveja e o
balançar da mamãe sacode (tem hífen?).
Ah, mamãe sacode...
Versão de "Tiete do Chiclete" na voz de Missinho
Os primeiros acordes da guitarra aguda do Cacique Johnny eram suficientes para que elas fossem levantadas. Um espetáculo visual que eu acompanhava pendurado no pescoço de Sêo Wanderley. Todo mundo erguendo os braços, agitando e na mesma sintonia (os mais moderninhos chamam isto de vibe). "Tiete do Chiclete", canção do disco "Sementes" (1985), era a música mais executada no Campo Grande, Casa D'Itália e Praça da Piedade. Um sucesso com mais de 25 anos.
Também acompanhávamos o
"Panela Vazia", nome mais que apropriado para um bloco nos anos marcados
pela inflação, gôndolas vazias e os "fiscais do Sarney", a tal década perdida. Bloco de bairro que reclamava da situação econômica com bastante irreverência.
Fiquei imaginando como será quando chegar o momento de apresentar o meu ao carnaval. Disponibilizarei meu ombro,
tomarei os cuidados com a identificação e hidratação. Não irei praguejar
contra a falta de criatividade, espontaneidade ou espaço. Só lamento a
ausência da mamãe sacode, ela lamentavelmente foi substituída por
mãozinhas de emissoras televisivas e placas de patrocinadores.
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